terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Artigo: AS SALAS DE EXIBIÇÃO – A NOVA TENDÊNCIA


As empresas exibidoras de filmes (SEVERIANO RIBEIRO, ART-FILMS, entre outras) passaram a atuar sob uma outra realidade a partir do final do século passado, com a entrada no mercado de empresas de exibição de filmes que passaram a utilizar uma tendência de reunir várias salas ocupando o mesmo espaço. Salas de exibição amplas, confortáveis e bem refrigeradas. Flexibilizando, inclusive, a programação de filmes. Até então, cada empresa exibia filmes de determinadas companhias como a COLUMBIA de Hollywood. Os direitos de exibição desta empresa pertenciam à ART-FILMS.

O processo teve origem com o advento dos shoppings, que já no início dos anos 90 abriu a possibilidade de, inicialmente, haver mais de um cinema da mesma empresa nestes locais de consumo e lazer. Para citar alguns exemplos, mais especificamente da Zona Norte, o GRUPO SEVERIANO RIBEIRO abriu duas salas no Norte-Shopping e a ART-FILMS (em tempos de maior atuação no mercado) também inaugurou duas. Todos os quatro cinemas estão hoje fechados, devido à expansão do citado Shopping que possibilitou a inauguração de dez salas administradas pela rede UCI.

Atualmente, cinemas como os do Madureira-Shopping (com quatro salas) e do Iguatemi (com sete salas) todos do GRUPO SEVERIANO RIBEIRO possuem preços reduzidos em relação aos demais, por não possuírem a marca Kinoplex (salas inclinadas no formato Stadium). Porém, uma inovação que o GRUPO SEVERIANO RIBEIRO implantou, em alguns cinemas como nas cinco salas do cine KINOPLEX NOVA AMÉRICA é a utilização do sistema de compra com lugar marcado. Há neste cinema, como em outros da empresa, na bilheteria, uma tela em formato de planta da sala com a referida numeração de cada poltrona, onde o espectador escolhe o local onde deseja sentar para assistir ao filme escolhido.

Os cinemas de rua tiveram seus dias de glória. E, mesmo as salas de Shopping que não possuem o know-how da marca Kinoplex e ainda, mesmo contando com uma concentração de algumas salas, podem ficar em segundo plano. A tendência moderna e mais aceita pelos espectadores de hoje, é de fato, consumir filmes em cinemas com as características já citadas. Os tempos são realmente outros e empresas como a ART-FILMS (que possui apenas seis salas no West-Shopping) parece não ter acompanhado esta tendência. Empresa respeitável, que este crítico de cinema teve o orgulho de trabalhar um dia na função de Porteiro-indicador, em vários cinemas da cidade.

MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Crítica: CREPÚSCULO

ARRASTADO E COM FOTOGRAMAS EM EXCESSO

CREPÚSCULO passa a impressão de ser um primeiro trabalho de um diretor. O filme comete erros que evidenciam uma falta de domínio narrativo. O longa possui duas horas de duração e para um roteiro um tanto vazio, haveria a necessidade de uma lipoaspiração nos seus minutos a mais. Tornaria o filme mais enxuto e menos arrastado. Outro defeito – agora de ordem técnica – é a intensidade da maquiagem facial do ator Robert Pattinson que muda em algumas cenas.

Bella Swan (Kristen Stewart) é uma moça introvertida que decide morar com o pai. Precisa mudar de endereço e dar continuidade a seus estudos em uma escola da nova cidade. Consegue amigos em seu novo ambiente estudantil e apaixona-se à primeira-vista por Edward Cullen (Robert Pattinson). Um rapaz considerado estranho por todas as pessoas, não somente da escola como por todos os demais habitantes do lugar. Cullen sente a mesma afeição e à princípio evita ao máximo uma aproximação. Até que movido por sua força e velocidade incomuns evita que Swan seja atropelada.

CREPÚSCULO possui uma narrativa um tanto irregular. A mistura de gêneros como o romance e o terror que movem a trama, torna o filme bem viável comercialmente. Principalmente entre os adolescentes. Mas, um pouco inadequado traduzido para a linguagem cinematográfica. A diretora Catherine Hardwicke utilizou em várias cenas tanto a câmera lenta como a rápida (muitas vezes na mesma seqüência). Um acerto estético.

O filme trabalha com a antítese. A mortalidade e a imortalidade são colocadas em julgamento no bonito idílio baseado em sinceridade e inocência que as personagens de Stewart e Pattinson vivem na tela. A questão moral do amor entre uma humana e um vampiro (dois seres opostos, se levarmos em consideração a existência de tal criatura), também é um antagonismo que Hardwick soube explorar bem. O romance entre os dois protagonistas principais é o maior atrativo de CREPÚSCULO.

CREPÚSCULO é um romance – com uma pitada de terror – exótico e implausível, que é bem produzido e tenta ser original com seus significantes e significado. A personagem de Kristen Stewart é a moça ideal para o casamento e formação de família. Ponto para a diretora. Seus diálogos são interessantes. A fotografia em tom mais escuro evidencia uma tentativa de Hardwicke em dar um estilo ao filme. Porém, o resultado final da película é insatisfatório pela falta de um vigor e um domínio maior da narrativa.

CREPÚSCULO aborda uma paixão bonita e verdadeira entre dois jovens que iniciam uma ligação afetiva desde o primeiro momento que se entreolham. E narra um exponencial amor entre dois seres antagônicos que transformam suas diferenças em uma adocicada e honesta relação. E que, ainda, decidem abdicar de suas condições de caçador e caça; predador e presa para complementarem-se e injetar a tão sonhada felicidade para suas vidas e existência.
MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Crítica: SETE VIDAS


UMA BELA VALORIZAÇÃO DA PUREZA D’ALMA E DO CORAÇÃO

Will Smith é mais uma vez o astro absoluto de uma produção Hollywoodyana. Como em seus sucessos anteriores (o fraco EU SOU A LENDA e o divertido HANCOCK), o ator é a principal estrela deste ótimo SETE VIDAS, que como tal em À PROCURA DA FELICIDADE (também dirigido por Gabriele Muccino) faz os espectadores chegarem às lágrimas devido ao tamanho sentimentalismo que bate na tela. De todos os filmes mencionados SETE VIDAS é sem dúvida nenhuma o melhor. E inclusive, é um dos melhores trabalhos da carreira de Smith – também em relação a sua atuação -.

Ben Thomas (Smith) é um homem determinado a ajudar sete pessoas - de tal forma que transforma inteiramente a vida delas-. Ben Thomas analisa o cotidiano de cada um. Analisa gestos e ações para descobrir se as pessoas possuem bondade em seus corações. Sua decisão é tomada partindo do princípio que seus escolhidos merecem realmente receberem o seu apoio. Sua missão possui uma causa não revelada a princípio. Usando de uma boa visão das personalidades de cada um e cometendo falsidade ideológica, o personagem principal consegue alterar positivamente o destino de seus agraciados.

SETE VIDAS possui uma narrativa lenta e apreciativa. Carrega uma grande semelhança com os filmes europeus – onde uma imagem vale mais que mil palavras -. O diretor da película busca nos detalhes – conseguidos através de closes e ângulos da câmera – cênicos uma forma estilosa e apreciável de filmar. O estilo narrativo de Gabriele Muccino é muito importante para a eficiência do longa. Muccino soube aproveitar ainda, cada momento de emoção do ótimo roteiro e valorizá-los emocionalmente ao máximo.

Uma das teorias que se obtém do filme é um significado religioso para as atitudes que a personagem de Smith expõe. Como se estivesse num Purgatório emocional (há uma explicação plausível para tanta generosidade e caridade que Ben Thomas exala durante toda a projeção do filme) Ben Thomas busca com seu planejamento benévolo sua redenção interior, moral e religiosa. Atormentado por um erro do passado (provocou um acidente de forma acidental), Ben Thomas age com muita determinação em seus objetivos.

SETE VIDAS trabalha com os sentimentos e emoções dos espectadores. Sem resvalar em pieguice e hipocrisia, o filme vai fundo no emocional humano. O choro que SETE VIDAS provoca durante sua exibição é prolongado para até depois de sua exibição. Impactante, sóbrio, forte e sentimental, SETE VIDAS é o tipo de filme para ser visto e revisto. È um dos melhores melodramas desta década e um dos melhores filmes de 2008.

Gabriele Muccino aproveita um roteiro original e bastante interessante para conceber uma história intensa sobre o acaso, a fatalidade, a culpa, a determinação, o transtorno emocional, a redenção e o desfecho disto tudo com um clímax tão triste e lacrimogêneo quanto memorável e eficaz sob todos os aspectos cinematográficos. Um final digno de um grande filme.

SETE VIDAS é um grande filme ao possuir um roteiro instigante, uma direção exemplar, boas atuações (com destaque para seu ator principal), diálogos primorosos, trilha sonora acertada e muita emoção que transborda da tela. Além disso, a montagem é perfeita. Suas surpresas são reveladas paulatinamente. Gabriele Muccino possui o domínio total da narrativa e realizou uma obra tão virtuosística em seu conteúdo e estética que seus significantes e significado são plenamente resolvidos e definidos. Sua idiossincrasia permite uma perplexidade e um choque emocional. Em tempos de conflitos de tolerância, SETE VIDAS é um banho de água fria em um deserto escaldante.

SETE VIDAS é uma exaltação à bondade e pureza da alma e do coração. E uma profunda reflexão sobre os gestos, ações e decisões das pessoas nos tempos modernos. E narra o tormento psicológico e doentio que um homem passa a conviver após uma fatalidade provocada por um descuido e que então dedica algum tempo de sua vida a buscar sua reparação e redenção pessoal e divina. E que, ainda, ao perceber estar emocionalmente envolvido com uma de suas escolhidas, antecipa seus planos e sem perceber desperdiça a chance de conseguir alívio para suas angústias e uma recompensa para tamanho empenho e altruísmo.

P.S.: Este crítico de cinema deseja a todos os seus leitores um FELIZ E PRÓSPERO 2009.

MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Crítica: VICKY CRISTINA BARCELONA e O SONHO DE CASSANDRA


WOODY ALLEN VOLTA AS SUAS ORIGENS CINEMATOGRÁFICAS

Depois de realizar dois filmes que fugiam a seu estilo tanto narrativo quanto de gênero: as obras-primas MATCH POINT (com Jonathan Rhyes Meyers e Scarlett Johansson) e O SONHO DE CASSANDRA (com Colin Farrell e Ewan McGregor), Woody Allen retorna a comédia - estilo cinematográfico que o consagrou -. Tanto neste VICKY CRISTINA BARCELONA quanto nos antecessores fica evidente o domínio narrativo e artístico de um cineasta mais que maduro em seu ofício. Fica claro também, que tanto na comédia como no drama, Allen sabe conduzir uma narrativa apoiado em seu próprio roteiro.

A trama deste badalado filme – recebeu indicação ao GLOBO DE OURO como melhor filme no gênero comédia ou musical – inicia com a chegada de duas turistas à Barcelona. As moças interpretadas pela sensualíssima - ao que parece ser a nova musa do diretor - Scarlett Johansson (Cristina) e pela bela Rebecca Hall (Vicky) passeiam pela cidade até que Cristina sente uma atração por um catalão interpretado pelo sempre competente ator Javier Bardem (indicado como melhor ator por este seu desempenho para o já citado GLOBO DE OURO). Tendo início um jogo de sedução sem muitas cerimônias. Bardem (Juan Antonio) se apresenta as duas e logo de cara diz que deseja levá-las para a cama. O trio então parte para Oviedo (cidade espanhola). Esta viagem de final de semana inesperada para Vicky e Cristina desencadeia uma série de fatos.


VICKY CRISTINA BARCELONA possui uma narrativa leve e descontraída. Sua montagem é perfeita. A trilha sonora é um capítulo à parte. Bem escolhida, ajuda no tom suave que Allen injeta à trama, e ainda, faz dançar. Os diálogos são tão interessantes quanto agradáveis. Allen optou por uma fotografia bem clara evidenciando distanciar-se ao máximo de seus trabalhos anteriores. As atuações são excepcionais. Com destaque para Bardem. Mas, as também indicadas ao GLOBO DE OURO Scarlett Johansson e Rebecca Hall e ainda Penélope Cruz (Maria Elena) estão em plena forma diante das câmeras.

O filme trata da felicidade, em sua plenitude, no amor e no casamento. Allen realiza um moderno pequeno clássico sobre ser e estar feliz para pessoas que às vezes desejam mais, muito mais do que deveriam supor querer e cobiçar. Aqui, ser feliz não basta para as personagens. É preciso ir mais além. A estabilidade financeira e emocional que a personagem de Rebecca Hall tem ao lado do marido – algo com o qual sempre sonhou - não é suficiente para mantê-la satisfeita. Deseja outros momentos com Juan Antonio. Sintoma da falta do ser humano em contentar-se definitivamente com o que conseguiu conquistar.

VICKY CRISTINA BARCELONA esmiúça um amor doentio entre Juan Antonio e Maria Elena. Esta relação é um dos pontos chaves da trama. A descompromissada Cristina - com relação a estabilidade amorosa - acaba por entrar na rotina, primeiramente com Juan Antonio, do casal. Assumindo o papel de catalisadora de emoções entre o par recém separado. Portanto indecisos quanto aos seus sentimentos. Fica estabelecido um triângulo amoroso entre os três. Não de imediato e também sem ser duradouro. No estranho amor entre as personagens de Bardem e Cruz são citadas as frases mais poéticas da película: “Somente um amor não consumado pode ser romântico” dita por Bardem repetindo a frase de sua ex-esposa e “Nosso amor é o mais e o menos completo” falada também pela personagem de Bardem, referindo ao seu casamento. Frases assumidamente poéticas que refletem um estado filosófico muito profundo que Allen soube como poucos transmitir com exatidão.

Allen faz de Bardem o ápice das atenções. Seu Juan Antonio é a personagem central do filme, sobre ele transitam Penélope Cruz, Scarlett Johansson e Rebecca Hall. Seu Juan Antonio quando toma a iniciativa de aproximar-se de Vicky e Cristina dá início a uma série de experiências e emoções afloradas que move e impulsiona toda a narrativa delicada e prazeirosa de VICKY CRISTINA BARCELONA. Juan Antonio é o típico conquistador que mudaria seu estilo de vida caso tivesse entrosamento de discurso com a neurastênica Maria Elena.

Dois detalhes do filme afirmam a marca de Wood Allen. Ao optar pela narração em off durante todo o filme, o diretor revela um acerto na estrutura narrativa de VICKY CRISTINA BARCELONA. E a insistência da personagem de Bardem quanto ao idioma que Cruz deve usar enquanto fala com Johansson. Trata de uma alfinetada nos filmes americanos quando são rodados em outros países e ainda assim seus diálogos são do idioma inglês.

VICKY CRISTINA BARCELONA é um filme belo e motivador. É também, um manual bem definido - tanto no conteúdo quanto na estética - sobre as relações humanas, sentimentais e sexuais. E aborda a busca da felicidade plena nas coisas do coração e conseqüentemente a infelicidade que essa busca ocasiona. E narra as desventuras amorosas que um homem recém divorciado provoca no íntimo de três pessoas do sexo oposto. Gerando desconforto, confusão e insatisfação tanto nos sentimentos das mulheres como no seu próprio emocional.



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WOOD ALLEN REALIZA MAIS UMA OBRA-PRIMA

O novo filme de Wood Allen (roteiro e direção) tem como referência a mitologia grega. O título do filme refere-se à profetisa da desgraça Cassandra. Allen utiliza este conceito para transpor para o cinema uma verdadeira tragédia grega ao contar a história do embate de dois irmãos, que se amam, depois de cometerem um erro vital em suas vidas. Wood Allen concebeu mais um filme que pode ser considerado um clássico instantâneo.

Colin Farrell – se desconstruindo em cena com sua espetacular atuação – e Ewan MacGregor interpretam dois irmão que possuem seus empregos, mas estão sempre desejando mais da vida. Farrell interpreta um apostador compulsivo e inveterado. Já a personagem de McGregor ajuda o pai no restaurante da família e vive de aparências, como usar carros emprestados pelo irmão mecânico e fingir ser um homem de negócios para conquistar uma bela atriz em começo de carreira ( papel de Angela Stark). Quando a dupla precisa urgentemente de dinheiro por razões diferentes, recorrem a um tio milionário e sem escrúpulos que em troca pede-lhes um favor para escapar da prisão: cometer um assassinato. Está assim aberta a Caixa de Pandora para a desunião entre os irmãos o início de um fim trágico como em um Sonho de Cassandra.

A fotografia do filme reluz na telinha e Allen filma com tamanha maestria que acerta em cada detalhe da película como a trilha sonora. O seu roteiro ajudou na tamanha facilidade de sua direção perfeccionista. A narrativa flui exemplarmente. O SONHO DE CASSANDRA possui conteúdo profundo e formato perfeito. O longa é uma celebração aos grandes dramas de outrora já realizados pela sétima arte. Seus diálogos são pura ironia e inteligência. É um filme denso e arrebatador. Suas idiossincrasias remetem a várias reflexões e questionamentos.

O SONHO DE CASSANDRA aborda magnificamente a dor da consciência por um grave erro cometido; o enlouquecimento provocado pelo remorso; o vislumbramento que o dinheiro causa e suicídio. É um filme que narra a tragédia de dois irmãos que cada qual com sua motivação em ganhar muito dinheiro, envolvem-se em um crime contra um dos sete pecados capitais que, mesmo contrariados, cometem e acabam por sucumbir ao embate moral e letal que ambos travam pelas conseqüências que suas precipitadas e equivocadas ações provocaram.


P.S.: Este crítico de cinema deseja aos seus leitores um feliz Natal e um próspero 2009.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Crítica: OS ESTRANHOS

EFICIENTE EXERCÍCIO DE TENSÃO PSICOLÓGICA

Filmes de suspense e terror são em sua maioria muito bem aceitos pelos espectadores. O público-alvo consiste nos adolescentes que de geração em geração são os principais consumidores destas produções (uma das especialidades de Hollywood). Neste OS ESTRANHOS o suspense se funde com o terror psicológico e seu resultado aceitável é devido ao clima sufocante e claustrofóbico que bate na tela e alguma originalidade narrativa. A angústia que Liv Tyler e Scott Speedman vivenciam acaba por contagiar os espectadores.

OS ESTRANHOS parte de um roteiro promissor e consegue êxito ao narrar a tensão e tormento psicológico que três estranhos delinqüentes provocam em um casal em conflito quanto ao interesse de firmarem compromisso de casamento. O mote acaba sendo bem delineado e eficazmente dirigido por Bryan Bertino. A narrativa flui e os calafrios e angústias que Liv Tyler e Scott Speedman passam - desde o momento que a campainha toca e uma menina pré-adolescente mascarada pergunta se Tamara se encontra na casa de campo (onde se desenvolve toda a ação) - acabam por fazer da película um eficiente exercício de tensão psicológica.

O filme faz parte de um grupo do gênero suspense que faz o acaso ser o fio-condutor de toda a trama. Tyler e Speedman estão no local errado e na hora errada. Os três estranhos do título desde o início estão sob o controle da situação. Mas desejam sadicamente manipular os dois protagonistas. Inconseqüentes e espertos fazem um interessante jogo de gato e rato com o casal principal e com isso a narrativa funciona bem. Esta essência de OS ESTRANHOS lembra a de HORAS DE DESESPERO (filme da década de 80 com Mickey Rourke). Neste filme a atmosfera era também de claustrofobia.

O longa possui uma estética acertada quanto aos elementos que fazem a narrativa funcionar. Bertino soube aproveitar cada detalhe sombrio para manter o interesse do espectador. O roteiro é fraco, mas o diretor acerta na idiossincrasia que bate na tela. O diferencial de OS ESTRANHOS para outros filmes do gênero é a afirmação de uma história tão plausível ou mais que um filme de um gênero sempre respeitado como o drama. Os bons valores éticos e morais estão cada vez mais sendo desprezados.

Mesmo sem ser brilhante (e realmente, não é) o longa se destaca por produzir vicissitudes originais: O rosto dos três assassinos nunca é mostrado e a razão de tamanho interesse do trio em causar pavor no casal de protagonistas principais é tão fútil quanto desprezível. Reflexo dos tempos atuais onde qualquer motivo gera uma atitude antagônica. Ocorrendo um típico caso de uma banalização da violência. O cinema reflete esta tendência sendo, inclusive, uma de suas peculiaridades.

OS ESTRANHOS possui uma atmosfera asfixiante. E narra horas de desespero de um casal apaixonado e indeciso em relação ao amor que sente um pelo outro, que inocentemente viram vítimas de um jogo de terror e manipulação psicológica. E depois de uma noite inteira de sofrimento e sentimento de incapacidade quanto aos momentos aterradores que passam a vivenciar, acabam de fato virando reféns de um trio que sem motivo algum resolve fazer perversidade somente para saciar seu desejo de sadismo e crueldade.

Crítica: A LISTA – VOCÊ ESTÁ LIVRE HOJE?

SUSPENSE ÓBVIO E SEM NOVIDADES

Ewan McGregor e Hugh Jackman são as estrelas deste apático e previsível A LISTA. Mesmo com a dupla no elenco percebe-se que o filme possui uma carência enorme de qualidades. Carências um tanto notórias evidenciadas pelas próprias atuações dos conhecidos atores. O longa apresenta uma falta de interesse enorme com o desenrolar da narrativa. O desempenho pífio do filme começa pelo fraco roteiro, passa pelas previsíveis reviravoltas e diálogos um tanto ridículos e finaliza com um clímax sem vigor. A direção de Marcel Langenegger é sem sombra de dúvida a maior responsável pelo fiasco que A LISTA acaba sendo.

Ewan Mcgregor vive um contador de empresa entediado com a sua rotina. Até que torna-se amigo de Hugh Jackman. Wyatt Bose (Jackman) finge uma amizade com segundas intenções. Intenções criminosas. Bose oferece a Jonathan Messer (McGregor) uma vida social mais ativa e plena. Seu jogo começa quando troca os celulares e finge viajar a negócios. Messer entra em um clube de sexo por telefone sem saber que na verdade está sendo manipulado. Seu tédio é trocado por noites de sexo com mulheres. Até o momento que Bose decide fazer Messer trocar o sonho pelo pesadelo.

A LISTA é previsível demais em suas reviravoltas e tedioso ao extremo em sua narrativa. O roteiro até que permitia a Langenegger algumas possibilidades de fazer o filme engrenar. Mas o equívoco começa com a falta de habilidade do diretor de fugir dos clichês e lugares-comuns. É perceptível com cinco minutos de antecedência cada virada na trama. Apesar de uns escassos bons momentos aqui e ali na história, A LISTA não passa autenticidade em sua estrutura narrativa.

A LISTA trabalha com a perspectiva de quem levará vantagem sobre o outro: um sujeito pacato ou um espertalhão e vigarista. E também, sobre a mudança de postura em relação ao estilo de vida e ainda, diante das dificuldades das relações humanas. Mas, a concepção de seu conteúdo e estética é amadorística. O desenrolar de todos estes assuntos acaba sendo reduzido a vicissitudes óbvias e a uma completa falta de credibilidade.

A personagem de McGregor acaba ao longo do filme se desacatando e tendo que fazer o que não deveria em função da extrema tensão que as ameaças e chantagens do escroque produzem em seu íntimo. Na tela acontece um duelo de espertezas que Messer nunca havia pensado em ter de enfrentar. Movido por amor, Messer acaba passando com louvor ao teste de resistência psicológica que a narrativa mostra a cada fotograma. Mas, A LISTA não aproveita este jogo de manipulações esboçado no roteiro e deixa de aprofundar no emocional de suas personagens.

A LISTA é monótono e medíocre. Mostra chantagem emocional, fraude e paixão à primeira-vista. E narra a tentativa de um homem solitário em sair da apatia social, sexual e sentimental. E ainda, mostra o amor entre co-chantagista e vítima que de lados opostos no jogo de interesses inicial acabam encontrando um no outro o alicerce para seus conflitos pessoais e o complemento que precisavam para suas antagônicas personalidades.

MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Crítica: QUEIME DEPOIS DE LER


DRAMA COM UMA PITADA DE IRONIA CÔMICA

Os irmãos Joel e Ethan Coen continuam em forma quanto ao estilo narrativo de sua filmografia. Depois do susto que provocaram em OAMOR CUSTA CARO com o ator George Clooney – o predileto dos cineastas - e Catherine Zeta-Jones, vieram o inusitado MATADORES DE VELHINHA com Tom Hanks e enfim, o oscarizado ONDE OS FRACOS NÃO TEM VEZ com Tommy Lee Jones. O mais novo filme dos irmãos QUEIME DEPOIS DE LER mantém a ironia cômica presente em quase todos os seus trabalhos. A essência (cada vez mais amadurecida) agridoce fica evidente em cada fotograma.

John Malkovich interpreta um funcionário da CIA que perde o posto que ocupa devido a problemas com a bebida. Perde também, um disquete com informações em uma academia de ginástica onde trabalham Frances MacDormand e Brad Pitt. Os dois acabam por praticar chantagem ao exigirem dinheiro de Malkovich em troca da devolução do arquivo. George Clooney vive um mulherengo que transa com a personagem de Tilda Swinton, não por acaso, esposa de Malkovich.

QUEIME DEPOIS DE LER retrata toda uma época ao mostrar os pensamentos e atitudes de adultos na faixa dos quarenta anos de idade que vivem buscando algo a mais para suas vidas sentimental: MacDormand age diferentemente de sua normalidade após a dificultosa negociação do disquete perdido, somente para pagar cirurgias estéticas visando estar mais atraente; O caso amoroso de Swinton com Clooney passa uma imagem de que o adultério é algo bastante comum nos tempos atuais e por fim, a Internet com seus sites de relacionamento afirmam uma facilidade muito grande em encontrar alguém disponível, mas nem sempre a pessoa ideal. Assuntos que são reflexo da sociedade atual.

QUEIME DEPOIS DE LER possui uma narrativa bastante definida em seu conteúdo e estética. Não há uma sequer cena gratuita e todas são relevantes para o desenrolar da trama. Suas vissicitudes são cuidadosamente filmadas. A montagem é perfeita. As personagens se encontram na tela com uma exemplar sincronia. A trilha sonora é acertada. O seu resultado final é satisfatório devido à estilosa direção dos Coen. Que escreveram um roteiro interessante e fizeram uma obra sofisticada, cativante e instigante.

O filme não chega a ser excelente. Mas é um trabalho inovador e original. Suas personagens são estereotipadas. Mas assim, QUEIME DEPOIS DE LER conquista a simpatia e um envolvimento maior do público para com a trama. A narrativa flui com perfeição. Devido também, a duração na medida exata do longa e às ótimas atuações de quase todo o bom elenco. John Malkovich e Frances MacDormand são os destaques. Clooney sobreatuando destoa um pouco dos demais.

QUEIME DEPOIS DE LER é uma comédia dramática descontraída que aborda de forma sólida e com realismo uma sociedade totalmente mudada em relação aos seus valores morais e éticos; e o controle do governo sobre a vida das pessoas. Trata também de adultério; chantagem; paranóia; a nova visão do casamento; e os namoros que tem origem na Internet. E narra o entrelaçamento narrativo de cinco personagens que acabam desorientadas na mediocridade – quando não têm um destino pior - devido às atitudes erradas que tomaram.

MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Crítica: A CAÇADA


CAÇADA MONÓTONA E ARRASTADA

Richard Gere é um ator de razoável eficácia diante das câmeras e já atuou em outro filme que retratava (como uma denúncia subliminar) um sistema corrupto. Em 1997 estrelou JUSTIÇA VERMELHA onde fazia um alerta quanto ao sistema de governo chinês em relação ao tratamento dado aos estrangeiros e à pena de morte por motivos vagos ocorridos naquele país. Como budista, Gere provavelmente resolveu participar do projeto devido à ocupação da China no Tibet (pátria do principal expoente do Budismo, o monge Dalai-Lama). Neste A CAÇADA volta ao filme denúncia ao trabalhar com a suposta ineficácia das autoridades responsáveis em relação à captura de líderes genocidas de guerra. O diretor e roteirista Richard Shepard foi buscar o texto na guerra nos Bálcãs, entre os muçulmanos e os sérvios. Trata-se na verdade de um conflito étnico.

Dois homens que fazem uma dupla em arriscadas coberturas para uma grande rede de televisão norte-americana em conflitos bélicos (o jornalista interpretado por Gere e o câmera vivido por Terrence Howard) são tão eficientes nas suas missões que ganham prêmios de excelência pelos seus trabalhos no desempenho de suas funções. Durante uma reportagem e no ar, Simon/Gere tem um surto e é demitido. Enquanto Simon passa por vários canais de televisão a cabo até ter que se endividar com agiotas para bancar suas próprias reportagens, Duck/Howard é promovido e passa a trabalhar em estúdio como operador-chefe de câmera. Assume um posto no estúdio da emissora e ganha regalias que sabe aproveitar. Até que, cinco anos depois, voltam a se encontrar e partem para uma busca a um temido foragido de guerra.

O roteiro razoável e a direção burocrática emperram o ritmo da trama. Arrastado e sem nenhuma cena de causar impacto e tampouco alguma originalidade. A CAÇADA possui uma narrativa monótona demais para um filme de ação e pouca intensidade nas situações tensas para um drama. O filme possui uma estrutura indefinida entre a sua definição de gênero. Gere e Howard atuam com certa determinação e contribuem para salvar o filme de um desastre total. A estética do filme é equivocada. Suas pequenas surpresas não provocam no telespectador algum grande interesse e ainda por cima, seu clímax é decepcionante.

A visão do diretor em relação aos jornalistas que fazem uma cobertura de guerra é perfeita. Sempre sagazes e astutos e com faro apurado para a notícia, correm riscos extremos durante o fogo cruzado diário que convivem diariamente durante o conflito. Mas o mote da película é absurdo: três jornalistas (desarmados e sem prática para tal desafio) em busca de um assassino rodeado por guarda-costas sanguinários. A motivação para tal tarefa, a princípio, o filme sugere ser financeira, mas na realidade é pessoal. Apesar de ser baseado em fatos reais, o diretor se deu ao luxo de fazer uma versão livre para o seu final. O filme assume, assim, um tom de fantasia em relação ao sucesso de suas personagens na empreitada.

Os conflitos de ordem étnica na Europa são intensos e dramáticos, provocando a ruptura de várias nações e, conseqüentemente a mudança de nome de cada país cujos habitantes não são completamente de uma mesma etnia. Estes países convivem sempre com a intolerância com relação à origem de cada um e passam os anos em uma conflituosa situação. Até a fragmentação, desmembramento e demarcação de territórios. Não sem antes haver muito derramamento de sangue. As nações que compunham a União Soviética eram de várias etnias e se emanciparam. Mesmo depois da fragmentação, a Geórgia e a Rússia – duas nações da antiga URSS - tiveram uma relação belicosa recentemente. A Geórgia não admitia que uma de suas etnias se emancipasse. Na antiga Iugoslávia – a ambientação deste A CAÇADA – os conflitos foram mais intensos, com a rusga bélica entre diversos povos como sérvios e croatas se duelando por questões étnico-nacionalistas. Vários jornalistas foram enviados para fazer a cobertura dos acontecimentos (o início, meio e fim de A CAÇADA).

A CAÇADA aborda (sempre resvalando na rotina e mesmice) coragem, perda amorosa, uma reputação abalada, apadrinhamento e obstinação ao narrar a trajetória de um jornalista famoso e destemido que acaba por entrar em declínio profissional e financeiro - após um fato ocorrido em Sarajevo -, mas que busca ao caçar o causador de seu infortúnio, além de vingança pessoal, a libertação de suas limitações e pressões que passou a exercer sobre si mesmo.

MÁRCIO MALHEIROS FRANÇA